Inhame e cará são a mesma coisa? Depende da região
No Nordeste, inhame é o Dioscorea que o Sudeste chama de cará; no Sul e Sudeste, inhame é o taro (Colocasia). Cozidos: 77 a 89 kcal por 100 g (TBCA).
Inhame e cará podem ser a mesma coisa ou não, dependendo da região. No Nordeste, inhame é o tubérculo do gênero Dioscorea — o mesmo que o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste chamam de cará. Nessas regiões do Centro-Sul, a palavra “inhame” vai para outra planta: o taro (Colocasia esculenta), de outra família botânica. Cozidos, os dois têm calorias parecidas: 89 kcal por 100 g (taro) e 77 kcal (cará), pela TBCA.
Em Minas, inhame sempre foi o pequenininho e peludo, da sopa. Na casa da minha avó nordestina, quando eu pedi inhame, veio um tubérculo enorme, comprido, de casca escura, cozido de manhã com manteiga. As duas cozinhas estavam certas — e falando de plantas diferentes.
Qual é qual: o mapa dos nomes
| O que você vê na banca | Planta | Família | No Nordeste | No Sul, Sudeste e Centro-Oeste |
|---|---|---|---|---|
| Tubérculo grande, comprido ou irregular, casca escura e grossa, polpa branca ou creme | Dioscorea (D. cayenensis, D. rotundata, D. alata, D. trifida) | Dioscoreaceae | inhame (o “inhame-da-costa”, o “inhame São Tomé”) | cará |
| Cormo pequeno ou médio, arredondado, casca marrom com anéis e fibras, polpa branca ou acinzentada | Colocasia esculenta | Araceae | taro | inhame |
| Variedade de polpa roxa | Dioscorea alata (o ube) e D. trifida | Dioscoreaceae | inhame roxo | cará roxo |
Nomes por região: Embrapa Hortaliças. As tabelas de composição TACO e TBCA usam os nomes do Centro-Sul: “inhame” para o taro e “cará” para o Dioscorea*.*
A regra curta: se é grande e comprido, é Dioscorea — inhame no Nordeste, cará no Sudeste. Se é pequeno, redondo e com anéis, é taro — que o Sudeste chama de inhame. Na Amazônia, os Dioscorea nativos também costumam ser chamados de cará, como o cará-roxo.
As duas plantas não são parentes próximas. O taro é da mesma família da taioba e do copo-de-leite; o Dioscorea pertence à família Dioscoreaceae, de outro ramo das plantas. Nenhum dos dois tem relação com a mandioca, o aipim e a macaxeira, que são uma terceira planta, a Manihot esculenta.
Por que a confusão existe (e quem tentou resolver)
A confusão tem até registro oficial. Em 2001, o 1º Simpósio Nacional sobre as Culturas do Inhame e do Cará adotou o nome taro para a Colocasia esculenta, para padronizar a denominação com a usada no resto do mundo. Desde então, técnicos e pesquisadores tentam popularizar o “taro” — o Incaper, órgão de pesquisa do Espírito Santo, estado que responde por 44% da produção nacional, publica seus manuais como “Taro (inhame)”.
O mercado não seguiu. No Sudeste, a placa da feira continua dizendo “inhame” para o taro. E as duas tabelas de composição de alimentos do Brasil também usam o nome do Sudeste para ele: na TACO (UNICAMP), “Inhame” é a Colocasia esculenta e “Cará” é o Dioscorea alata; na TBCA (USP), o taro aparece como “Inhame (taro)” e o Dioscorea como “Cará (inhame)”. Quem é do Nordeste e procura o “inhame” da própria casa nessas tabelas precisa olhar a linha do cará.
A Embrapa Hortaliças registra os dois lados: o inhame (Dioscorea) é “conhecido no Centro-Sul do Brasil como cará”, e o taro é “conhecido na região Centro-Sul do Brasil como inhame”.
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| Taro (o “inhame” do Sudeste) | Dioscorea (inhame do Nordeste / cará do Sudeste) | |
|---|---|---|
| Tamanho | Pequeno a médio; os melhores cormos laterais passam de 100 g (Incaper) | Grande |
| Formato | Arredondado ou oval | Comprido, cilíndrico ou irregular |
| Casca | Marrom, com anéis e fibras (“peludinha”) | Escura, grossa, áspera, às vezes com raízes finas |
| Polpa crua | Branca ou acinzentada, com pontinhos | Branca, creme ou roxa |
| Depois de cozido | Macio, levemente viscoso, sabor suave | Mais firme e farinhento, sabor marcante |
| Uso típico | Sopas, purês, caldos | Cozido no café da manhã com manteiga, ensopados |
Os dois soltam uma baba (mucilagem) quando descascados crus. É normal e diminui no cozimento.
Calorias e nutrientes: o que dizem a TBCA e a TACO
Por 100 g, com a indicação de cru ou cozido e da tabela de origem:
| Alimento (100 g) | Estado | Calorias | Carboidratos | Proteína | Fibra | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Inhame (taro) | cozido | 89 kcal | 20,5 g | 2,3 g | 1,6 g | TBCA |
| Inhame (taro) | cru | 88 kcal | 20,3 g | 2,3 g | 1,6 g | TBCA |
| Inhame (taro) | cru | 97 kcal | 23,2 g | 2,1 g | 1,7 g | TACO |
| Cará (Dioscorea) | cozido | 77 kcal | 18,9 g | 1,5 g | 2,6 g | TBCA |
| Cará (Dioscorea) | cozido | 78 kcal | 18,9 g | 1,5 g | 2,6 g | TACO |
| Cará (Dioscorea) | cru | 96 kcal | 23,0 g | 2,3 g | 7,3 g | TACO |
Dois detalhes que costumam aparecer errado por aí:
- Os 97 kcal do inhame são do produto cru, na TACO. A TACO não analisou o inhame cozido. Na TBCA, o taro tem praticamente as mesmas calorias cru (88 kcal) e cozido (89 kcal). Os 97 kcal da TACO vêm de outra amostra e de outro método de cálculo, não do cozimento.
- Os 7,3 g de fibra do cará são do cará cru, e o cru e o cozido foram analisados em amostras separadas. Cozido, o cará tem 2,6 g. O cozimento não “destrói” a fibra; a comparação entre amostras diferentes é que exagera a diferença. Ainda assim, cozido, o cará tem mais fibra que o taro.
Comparado com os outros carboidratos do prato, todos cozidos, por 100 g:
| Cozido, 100 g | Calorias | Fibra | Proteína |
|---|---|---|---|
| Cará (TBCA) | 77 kcal | 2,6 g | 1,5 g |
| Inhame (taro) (TBCA) | 89 kcal | 1,6 g | 2,3 g |
| Batata-doce (TACO) | 77 kcal | 2,2 g | 0,6 g |
| Batata inglesa (TACO) | 52 kcal | 1,3 g | 1,2 g |
| Mandioca / aipim / macaxeira (TACO) | 125 kcal | 1,6 g | 0,6 g |
| Arroz branco (TACO) | 128 kcal | 1,6 g | 2,5 g |
Inhame e cará cozidos ficam no mesmo patamar da batata-doce e cerca de 30 a 40% abaixo do arroz e da mandioca. Uma porção de 150 g — um acompanhamento generoso — tem cerca de 134 kcal de inhame (taro) ou 116 kcal de cará.
Pode comer cru? Não
Inhame/cará (Dioscorea): a orientação da Embrapa é direta — é “consumido sempre na forma cozida, após a retirada da casca”.
Taro: cru, ele provoca coceira e irritação na boca e na garganta. O Incaper explica a causa: um agente irritante presente em todos os órgãos da planta, associado a cristais de oxalato de cálcio em forma de agulha (ráfides), que representam 0,1% a 0,4% do peso fresco, conforme a variedade. Cozinhar ou secar resolve. É por isso que receitas de “suco de inhame cru” para “limpar” alguma coisa não são uma boa ideia: o que é seguro é o inhame cozido.
Cristais parecidos existem no Dioscorea, e é por isso que os dois podem coçar a mão quando descascados crus. Dá para evitar de dois jeitos: descascar com luvas, ou cozinhar com casca e tirar a casca depois, quando ela sai fácil e já não coça.
Como escolher, guardar e cozinhar
- Na compra: firmes, sem partes moles, enrugadas, mofadas ou brotadas (Embrapa).
- Guardar o Dioscorea (inhame/cará): fora da geladeira, em lugar fresco, seco, escuro e arejado. Assim, dura mais de 15 dias. Na geladeira por muito tempo, o sabor muda e ele brota mais rápido.
- Guardar o taro: também fora da geladeira, em local arejado, escuro e seco, por até 10 semanas. Se for para a geladeira, na gaveta de baixo, dentro de saco plástico.
- Congelar: o taro descascado e cozido até ficar macio congela por até 6 meses (Embrapa). Para saber quanto tempo o inhame cozido dura na geladeira, valem as regras de até quando posso guardar a comida.
- Cozinhar: descascado, em água ou no vapor, até o garfo entrar sem resistência. No método da TACO, o cará descascado cozinhou cerca de 30 minutos em panela aberta. Evite deixar no fogo além do necessário: o tubérculo desmancha e perde vitaminas.
Dica da Lívia
Hoje eu faço igual a todo mundo que tem família em mais de uma região: pergunto na feira “esse é o inhame pequeno ou o grande?”. Ninguém estranha. E guardei o hábito da minha avó: o inhame grande, cozido de manhã com um fio de manteiga, me sustenta até a hora do almoço.
O taro eu uso para sopa e purê, porque ele dá cremosidade sem precisar de creme de leite. E aprendi a não descascar cru sem luva — uma vez basta para lembrar da coceira.
O que eu não faço é cair em promessa milagrosa. Já li que inhame “limpa o sangue”, “desintoxica”, “cura” isso e aquilo. Nada disso tem comprovação científica. Inhame é um carboidrato bom, barato e versátil. Isso já é motivo suficiente para colocar no prato.
Veja também
- Mandioca, aipim ou macaxeira: qual a diferença? — a outra raiz de nomes regionais, e o caso da mandioca brava
- Tangerina, mexerica, bergamota ou poncã — o mesmo mapa de nomes, para a fruta
- Calorias da mandioca cozida — 125 kcal por 100 g, por pedaço e preparo
- Calorias da batata-doce — o tubérculo com calorias mais parecidas com as do cará
- Substituições para o arroz branco no almoço — inhame, mandioca e outras trocas
Fontes
- TBCA — Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (USP/FoRC): inhame (taro) sem casca, cru (BRC0025B) — 88 kcal, 20,3 g de carboidratos totais, 2,3 g de proteína, 1,6 g de fibra; inhame sem casca, cozido, drenado, sem óleo e sem sal (BRC0342B) — 89 kcal, 20,5 g de carboidratos, 2,3 g de proteína, 1,6 g de fibra; cará (inhame), Dioscorea alata, cozido (BRC0046B) — 77 kcal, 2,6 g de fibra; cará (ube, inhame roxo).
- TACO — Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, 4ª edição (NEPA/UNICAMP): inhame cru (Colocasia esculenta) — 97 kcal, 23,2 g de carboidratos, 2,1 g de proteína, 1,7 g de fibra; cará cru (Dioscorea alata) — 96 kcal, 7,3 g de fibra; cará cozido — 78 kcal, 18,9 g de carboidratos, 1,5 g de proteína, 2,6 g de fibra. Comparativos: batata-doce, batata inglesa, mandioca e arroz tipo 1, cozidos.
- Embrapa Hortaliças — “Hortaliça não é só salada”: páginas do inhame (Dioscorea, “conhecido no Centro-Sul do Brasil como cará”; consumo sempre cozido; conservação por mais de 15 dias fora da geladeira) e do taro (“conhecido na região Centro-Sul do Brasil como inhame”; conservação por até 10 semanas; congelamento por até 6 meses).
- Incaper — Taro (inhame): boas práticas de colheita e de pós-colheita (Balbino et al., Vitória, 2018): adoção do nome “taro” no 1º Simpósio Nacional sobre as Culturas do Inhame e do Cará (2001); agente irritante em todos os órgãos da planta, com cristais de oxalato de cálcio (0,1% a 0,4% do peso fresco); necessidade de cozimento ou secagem; cormos laterais acima de 100 g com melhor preço.
- Secretaria da Agricultura do Espírito Santo (Seag): o estado responde por 44% da produção nacional de inhame (taro).
- Botanical Dermatology Database — Dioscoreaceae: ráfides de oxalato de cálcio do Dioscorea como causa de irritação e coceira na pele.
Perguntas frequentes
Inhame e cará são a mesma coisa? +
Depende de onde você mora. No Nordeste, 'inhame' é o tubérculo do gênero Dioscorea — o mesmo que São Paulo, Minas, Rio e o Sul chamam de 'cará'. Nessas regiões do Centro-Sul, porém, a palavra 'inhame' vai para outra planta, o taro (Colocasia esculenta). Então o inhame da Bahia é o cará de São Paulo, e o inhame de São Paulo é o taro.
Taro e inhame são a mesma coisa? +
No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sim: o que se vende como 'inhame' nessas regiões é o taro (Colocasia esculenta), da família Araceae. 'Taro' é o nome padronizado pelos pesquisadores desde o 1º Simpósio Nacional sobre as Culturas do Inhame e do Cará, em 2001, para seguir o nome usado no resto do mundo — mas o mercado continua dizendo 'inhame'. No Nordeste, 'inhame' é outra planta, o Dioscorea.
Qual a diferença entre inhame e cará? +
Quando os dois nomes aparecem juntos no Sudeste, a diferença é de planta: o 'inhame' é o taro (Colocasia), pequeno, arredondado, de casca marrom com anéis; o 'cará' é o Dioscorea, maior, comprido ou irregular, de casca escura e grossa. Cozidos, têm calorias parecidas — 89 kcal (inhame/taro) e 77 kcal (cará) por 100 g, ambos pela TBCA — e o cará cozido tem um pouco mais de fibra (2,6 g contra 1,6 g).
Pode comer inhame cru? +
Não. A Embrapa orienta que o inhame (Dioscorea) seja consumido sempre cozido, depois de descascado. O taro cru provoca coceira e irritação na boca e na garganta por causa de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulha, que o Incaper estima em 0,1% a 0,4% do peso fresco; o cozimento ou a secagem resolvem. Suco de inhame cru, portanto, não é recomendação segura.
Por que o inhame coça a mão quando a gente descasca? +
Por causa de cristais de oxalato de cálcio em forma de agulha, que espetam a pele quando o tubérculo cru é cortado. Eles existem tanto no taro quanto no cará (Dioscorea) e, no taro, estão espalhados pela planta toda, não só na casca. Descascar com luvas, ou cozinhar com casca e descascar depois, evita a coceira. Depois de cozido, não coça mais.
Inhame engorda? +
Não mais do que outros carboidratos do prato. O inhame (taro) cozido tem 89 kcal por 100 g (TBCA), cerca de 30% menos que o arroz branco cozido (128 kcal) e a mandioca cozida (125 kcal, TACO). Como com qualquer alimento, o que pesa é a porção e o preparo: inhame cozido é leve; purê com manteiga e queijo, nem tanto.
Quantas calorias tem o inhame cozido? +
89 kcal por 100 g de inhame (taro) cozido, com 20,5 g de carboidratos, 2,3 g de proteína e 1,6 g de fibra, segundo a TBCA (USP). A TACO só traz o inhame cru, com 97 kcal; a diferença para o cozido vem da tabela e do método, não do cozimento — na própria TBCA, o cru tem 88 kcal. O cará cozido tem 77 kcal (TBCA) ou 78 kcal (TACO). Uma porção de 150 g de inhame cozido tem cerca de 134 kcal.
Inhame é o mesmo que mandioca ou macaxeira? +
Não. Mandioca, aipim e macaxeira são três nomes da mesma planta, a Manihot esculenta, de outra família (Euphorbiaceae), com mais calorias: 125 kcal por 100 g cozida. Inhame (taro ou Dioscorea) é outra coisa, do ponto de vista botânico e na cozinha. A confusão de nomes da mandioca tem página própria: macaxeira, aipim ou mandioca.
Ube é inhame? +
O ube é o inhame roxo das Filipinas, a espécie Dioscorea alata — a mesma planta que a TBCA registra como 'cará (ube, inhame roxo)'. Ou seja, é um Dioscorea de polpa roxa, não um taro, que tem polpa branca ou acinzentada. Alguns doces de ube industrializados usam corante para reforçar a cor; o rótulo mostra.
De onde vêm esses valores? +
Calorias e nutrientes: TBCA (USP) para inhame (taro) cru e cozido e cará cozido; TACO 4ª edição (UNICAMP) para inhame cru e cará cru e cozido. Nomes regionais e conservação: Embrapa Hortaliças. Oxalato de cálcio no taro e nome 'taro': Incaper (2018). As duas tabelas usam o nome do Sudeste para o taro: 'Inhame' na TACO e 'Inhame (taro)' na TBCA.
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